A maior parte das clínicas de fisioterapia foi desenhada para tratar.
Mas, hoje, também se treina lá dentro, e a planta do espaço não acompanhou.

Falámos com fisioterapeutas de Portugal e Espanha sobre o que está a mudar na profissão, o papel do exercício e o que fariam de outra forma se abrissem a clínica hoje.

A marquesa deixou de chegar

“Preparar salas de exercício multifuncionais, desde exercício terapêutico, controlo motor e Pilates até exercícios de força. Para isso, é importante ter uma sala e, naturalmente, uma superfície devidamente adaptada.”
Jesus Dorado, Clinica Fisioterapia en Equilibrio

A palavra que interessa nesta resposta é multifuncional. A mesma sala recebe um paciente a trabalhar no solo, a seguir alguém a agachar com carga, e a meio da tarde três pessoas ao mesmo tempo com o fisioterapeuta a circular entre elas.

Cada um destes usos pede uma coisa diferente do chão. O trabalho no solo pede amortecimento e superfície que se limpe. A carga pede densidade para não afundar sob o pé e para encaixar a queda de um haltere. Vários pacientes ao mesmo tempo pedem área livre e referências visuais que orientem cada um sem o fisioterapeuta ter de estar em três sítios.

Servir os três exige uma decisão sobre o pavimento tomada antes de as paredes subirem.

A tecnologia também aparece como tendência, com a ecografia e a fisioterapia invasiva. E com ela a questão de como o equipamento entra na clínica.

“Tecnologia e equipamentos, bem como a capacidade de integrar equipamentos que acrescentem valor de forma integrada e não apenas de forma isolada, desligados de uma estratégia centrada no utente.”
Samuel Ferreira, FisioVida

Especializar em vez de abarcar

Sobre o futuro da profissão, a palavra que se repete é especialização.

“Vejo uma fisioterapia cada vez mais especializada por áreas de intervenção, com profissionais mais bem preparados, tanto pela maior facilidade em encontrar informação recente como pela crescente capacidade crítica para analisar essa informação.”

Especializar tem uma consequência prática que raramente se discute quando se fala de formação. Muda o que a clínica precisa de ter.

Uma clínica generalista distribui o investimento por muita coisa e acaba com um pouco de tudo. Quem decide trabalhar sobretudo um segmento desportivo ou população idosa sabe que equipamento lhe faz falta e que área tem de reservar para ele.

Ao lado da especialização entra a dimensão humana: empatia, escuta ativa, o utente no centro do processo, com os fatores contextuais a influenciar os resultados clínicos. É o contrapeso a uma conversa de setor que costuma girar quase toda à volta de aparelhos.

Exercício, e a razão pela qual a lesão volta

“Uma lesão surge devido a um desequilíbrio que gera um défice ou falha e que, a longo prazo, altera ou lesiona a estrutura. Por muita terapia manual que seja realizada, se as fraquezas e a causa do problema não forem trabalhadas, este terá tendência a reaparecer com facilidade.”
Jesus Dorado, Clinica Fisioterapia en Equilibrio

Os números dão-lhe razão. Estima-se que entre 25% e 50% dos pacientes com lombalgia aguda tenham recidivas ou evoluam para formas crónicas, e uma revisão de 2023 concluiu que a intervenção com exercício reduz em cerca de 30% a taxa de recidiva da lombalgia crónica ao fim de três anos.

Traduzido para a agenda da clínica: o paciente que volta com a mesma queixa três meses depois ocupa uma vaga com trabalho que já devia estar feito.

Do lado da população, a pressão só vai aumentar. O último Eurobarómetro do Desporto e Atividade Física coloca Portugal em último lugar na União Europeia, com 73% dos inquiridos a dizer que nunca faz exercício ou desporto, contra uma média europeia de 45%. Acima dos 55 anos, a percentagem dos que nunca ou raramente praticam sobe para 91%.

É a faixa etária que mais enche as clínicas de fisioterapia e é a que chega com menos reserva de força para gastar.

Prescrever exercício a quem nunca o fez exige acompanhamento presencial, progressão lenta e um sítio onde isso aconteça em segurança.

O que fariam diferente

Perguntámos o que mudariam se abrissem a clínica hoje.
As respostas apontam para o espaço e para a estrutura.

“Faria uma distribuição diferente das salas, para que tanto os profissionais como os pacientes tivessem o espaço necessário. Deixaria de ser apenas uma sala com uma marquesa e passaria a existir uma sala onde fosse possível realizar exercícios com várias pessoas, num ambiente controlado e adaptado.”
Samuel Ferreira, FisioVida

“Criaria desde o início um departamento de exercício bem estruturado e com margem suficiente para crescer nos próximos anos.”
Jesus Dorado, Clinica Fisioterapia en Equilibrio

“Mais do que investir em maquinaria inespecífica, apostaria numa boa marquesa e numa pequena sala para avaliar fraquezas e desequilíbrios, ensinar os exercícios e até realizar treino.”

As três respostas separam duas decisões que costumam ser tomadas ao mesmo tempo e com o mesmo orçamento: comprar equipamento e desenhar espaço.

A primeira é reversível. Dá para adiar, trocar, vender.

Mudar a distribuição das salas numa clínica em funcionamento significa parar, obras e faturação perdida durante semanas.

Daí a expressão margem para crescer, que aparece numa das respostas. Trata-se de reservar área e preparar o chão para uma coisa que ainda não existe.

O conselho a quem está a começar

Especializar-se numa área em vez de tentar dominar todas, porque o paciente procura cada vez mais um especialista. Visitar outras clínicas, ver como trabalham e retirar de cada uma o que serve antes de decidir a que mercado se dirigir.

E um conselho sobre o próprio paciente.

“Mostrar ao paciente que é necessário combinar a massagem com o exercício.”

Um paciente que chega à clínica à espera de massagem e sai com uma prescrição de exercício precisa de perceber porquê, e a explicação convence mais quando a sala ao lado mostra que a clínica leva o tratamento a sério.